HATHOR: A CASA DO VERBO “Ela une-se à sua imagem, ela desce do céu, para entrar no horizonte do seu Ka sobre a Terra, ela envolve o seu corpo, ela une-se à sua forma, que está gravada no seu santuário, ela senta-se sobre a sua imagem que foi esculpida na parede.”*
Desde há uns meses que estou ao serviço da Alta Sacerdotisa, em Denderá… Não sei porque fui escolhida para a servir de noite e de dia…mas eu já vi que é muito difícil para mim continuar a servi-la de bom grado como quando aqui cheguei e pensava que seria muito agradável…
No início tudo parecia fácil e a Alta sacerdotisa era afável, mas depois começou a embirrar comigo…a pesar-me, a mandar-me calar e mandar repetir-me tudo o que eu fazia como se eu fosse uma novata! Dizia que eu não sabia nada e fazia tudo errado… Não sei quanto tempo mais vou suportar a sua arrogância, o seu modo de ser que é tão diferente das irmãs a que estava habituada na casa grande. Ela não é amável nem atenta. É egoísta e vaidosa, vê-se o tempo todo ao espelho e fala com sapiência é certo, mas vangloria-se do seu saber como se ela fosse a detentora da sabedoria e não a própria Deusa. Fica horas a preparar-se para os rituais e faz-me pintá-la com esmero, as vezes repetidamente e sempre a perguntar-me se está bem…espera, parece, apenas elogios de todos e vejo que gosta que as outras irmãs a adulem…Todas lhe oferecem espelhos… A mim não me parece bem…Eu sei que ela é a mais bela e inteligente sacerdotisa do templo de Hathor, mas não me parece que estivesse pronta para o cargo.
Também sei que a Deusa não vai gostar nada da sua conduta, mas ela tem ainda poder e conseguiu convencer as anciãs que a elegeram… Ela é vaidosa e não faz mais do que servir-se a si própria, isto é o que eu penso mas não me atrevo a dizer a ninguém. Mas para mim Hathor, é a mais bela, e sei que Ela não vai gostar que nenhuma sacerdotisa lhe tire a sua glória…Ela é a Deusa suprema e não vai consentir que a alta sacerdotisa, que usa o seu colar de pedras preciosas e pérolas, lhe roube o esplendor nem nos engane na sua falsa humildade. Ela não vai deixar que ela siga no seu falso pedestal. A Deusa tem muitas faces e se na sua bondade nos acolhe também nos castiga na sua face de leoa, Shekimit…aquela que é justa e proteja as mulheres e responde aos seus apelos.
Eu, na minha luta interior, não quero ser cúmplice da sua queda que prevejo e vou muitas vezes rezar a Bastit para que ela me tire do seu serviço, mas não tarda que a Deusa das duas faces se enfureça. Bem sei que por enquanto vou ter de continuar às suas ordens, mas não direi mais nada quando ela me perguntar se está bela…fingirei que não a ouço ou que me dói a cabeça….espero que ela não me chame mais para que não me faça todo o tempo carregar-lhe as túnicas, os pesados colares e os espelhos, os perfumes, os incensos e a mude de roupa vezes sem conta… Não quero continuar a massajar-lhe a pele suave nem os pés delicados que pousa no meu colo quando se recosta na sua cama dossel, nem quero tocar harpa ou arranjar as flores que adornam o seu quarto nem preparar as suas mandrágoras, pois o meu coração fica tão apertado que mal consigo respirar. Se ela insistir nos meus serviços eu recuso-me mesmo que vá de castigo para uma cela e fique reclusa um mês, ou um ano, sim, mesmo que não assista à festa do ano novo para homenagear a Deusa do amor e da Alegria. Não quero servir uma cópia falsa da Deusa. Não foi por isso que vim para Templo.
Dendera é o lugar mais belo da Terra amada mas eu, mesmo que vá para outro lugar, prefiro a servir uma mulher cruel e tão vaidosa…Há outras irmãs que eu adoro com quem canto e que vejo dançar nas procissões, e quando isso acontece sinto-me tão feliz e em casa…a minha alma voa como o pássaro Ba, neste lugar o mais belo da terra em que se une a nossa alma ao nosso ser eterno e ela encontra o seu Ka…porque é na casa da Deusa que o Sol brilha mais e por isso está sempre perto do céu…este é o lugar onde a sua Luz se eleva aos céus e ilumina os quatro cantos do mundo. Eu, não sei porquê, perdi a minha alegria de viver desde que estou ao serviço da Alta Sacerdotisa; a minha alma está cada dia mais doente e eu sinto-me tão deprimida e ansiosa…há uma saudade tão grande da Deusa Mãe que eu não compreendo, parece que ela está cada dia mais longe de mim… Amanhã se ela me voltar a chamar fingirei que estou sem forças e desmaio à sua frente; assim farei com que chamem a Sacerdotisa Curadora do Templo…A ela eu não preciso enganar, basta dizer-lhe o que sinto, pois ela sabe bem e respeita os nossos sentimentos pois eles são sagrados e falam da nossa alma…
A Curadora das almas veio e disse-me que os meus sintomas eram de uma mulher numa fase de apaixonada…e perguntou-me quem eu amava em segredo…eu respondi espantada que só amava a Deusa e mais ninguém pulsava no meu coração…ela então riu-se e disse-me que não era verdade, que eu devia estar a projectar o meu amor na Alta Sacerdotisa e por isso ela reagia assim comigo, para me tornar consciente da outra Face da Deusa, e para retirar a projecção…eu quase gritei e disse-lhe que não, que não podia ser, que isso era impossível pois o que eu sentia mais se parecia com ódio…por ela…e que essa suspeita me amargurava de dia e de noite e me enchia de medo da Deusa… Nesse momento a curadora olhou no fundo dos meus olhos e disse…-"minha irmã, tu não sabes ainda que o ódio não é senão amor na sua forma mais violenta e embora primária, brota da alma tal como o amor mais puro ou a adoração da Deusa? Nós temos de vivenciar no nosso caminho iniciático todas as formas de amar…e odiar é só mais uma, no seu oposto e avesso, o mais perigoso, é certo, e se não o souberes alquimizar pode ser pior que veneno e é por isso que estás doente, mas é ainda amor”… Nos seus olhos azuis como a turquesa, eu vi paz e amor e então ela olhou-me com um sorriso compreensivo, muito serenamente, tocou-me na testa com a mão em sinal de respeito e depois deixou-me só; eu fiquei a chorar toda a noite.
No dia seguinte, quando a Alta Sacerdotisa me chamou, ao olhar para mim, como se adivinhasse a minha dor e o meu espanto, apesar dos meus olhos inchados - o que a faria ver que me encontrava verdadeiramente convalescente - sorriu-me como nunca me tinha sorrido, olhou para dentro dos meus olhos como nunca me tinha olhado e disse: “Estás agora pronta para representares a Deusa. A partir de hoje vais ser minha oficiante e dormir no meu quarto para de manhã me acordares com os teus mais belos cantos…o meu coração reconheceu-te como a mais fiel servidora da Deusa. Todos os dias vais dançar para mim”.
Ela estava tão bela no seu resplandecente leito que a minha alma ficou enevoada e eu atordoada por tanta beleza. Sem me conter, ajoelhei-me na beira do seu leito e comecei a chorar, pedindo-lhe perdão. Ela levantou-me o rosto com as mãos e apertando-o olhou directamente a minha alma disse ainda: “Tu passaste a prova.” Então, levantou-se com a majestade da própria Deusa, imponente e cheia de amor, deu-me a Chave da Vida depositada no altar da Deusa, a Anke em forma de espelho e disse: “olha bem para ti: agora já sabes que o amor tem muitas faces e nenhuma é verdadeira até que sejas só Tu e Eu unidas no Seu Amor.” E acrescentou: “E nunca esqueças que é na sede do meu coração que Ela habita e o lugar que Ela mais ama. “Tot disse “que a mais pura alegria é aí que reina, e que lhe ofereçamos vinho sem cessar antes de a qualquer outra Deusa”
E DIANTE DO ALTAR DA DEUSA EU BEBI DO SEU SEIO O LEITE E O VINHO ATÉ CAIR A SEUS PÉS ENEBRIADA E FELIZ, SUA SERVA, SALVA PARA TODA A ETERNIDADE.
DEDICADO À QUEM AMA OS GATOS A MESTRIA DO SER (OU NÃO SER...)
(...) O ser humano ainda não iluminado pela sua consciência espiritual quanto aos valores reais ou relativos, deixa o seu mental apoiar os desejos instintivos do seu ser inferior, cujas exigências anárquicas criam tumultos de aceleração de impaciência, e de caprichos incoerentes. Sofrendo dessas influências, o Autómato humano assemelha-se a certo tipos de animais. O cão treme de impaciência diante do osso avidamente desejado. A inconstância do macaco é típica pela sua dispersão de ideias. A agitação da mosca lança-a para a armadilha da aranha. A pressa é a preocupação da abelha pelo dever social; é também a inquietação da formiga que tem sempre qualquer coisa que fazer, mas que se precipita em voltas supérfluas, sabendo a direcção, mas não a maneira de contornar os obstáculos.
Ao contrário de outros animais que nos dão uma lição de mestria, sendo exemplo disso o gato cuja sabedoria é um modelo porque junta a maior paixão à mais indiferente calma.
Na sua imobilidade reflecte o seu salto, sempre exacto; a força dos seus rins é proporcional ao relaxe do seu sono: há no seu sono, o abandono da criança recém-nascida, enquanto que o seu instinto está sempre de vigília; a sua leveza sem resistência torna a sua queda sem perigo; Caça e luta são para ele alegria do jogo: ele caça sem ódio e joga sem finalidade; constantemente pronto ao ataque sem animosidade, e pronto a defender-se sem apreensão: vencedor indiferente, ele nunca é vencido.
A serenidade é o fruto da independência. Cria em ti esta independência, que não é indiferença, mas neutralidade face às impressões recebidas do exterior: bonito e feio, bom e mau, alegre ou triste, agradável ou penível... Um a coisa é discernir as qualidades, outra é deixá-las afectar a nossa disposição. (...). La paz sobre esta Terra não pode ser a supressão das forças opostas, mas a sua conciliação no interesse de um fim comum: a vida indestrutível.
In « L’OUVERTURE DU CHEMIN » de ISHA s. DE LUBCZ
O LIVRO essencial do Conhecimento iniciático do Egipto
«««« O GATO NO ANTIGO EGIPTO
A Deusa com cabeça de gata, Bastit, era a irmã de Sekhemet da qual ela representava o aspecto doce. Ela bebe leite enquanto que Sekhemet bebe sangue... (...) Algumas vezes Bastit tem na sua mão a cabeça de Sekhemet, para mostrar que ela pode esconder esse outro lado... O gato era o animal sagrado em Bubaste, onde Bastit tinha o seu Templo; os gatos eram intocáveis e quando morriam eram embalsemados. O gato tem um aspecto lunar e um aspecto solar. Ele é dotado de uma extraordinária flexibilidade da coluna vertebral e dum poder energético intenso.
"L'oeil est donc comme une image-symbole évoquant la notion de santé physique, que le candidat à l'immortalité est censé retrouver dans le monde de la vie éternelle. Le symbole de l'œil se réfère également au mythe cosmogonite du démiurge, et à celui d'Horus." Ó meu coração de minha mãe,ó meu coração da minha mãe, víscera do coração das minhas diferentes idades, não te levantes contra mim em testemunho, não te oponhas a mim em tribunal, não mostres hostilidade contra mim na presença do guarda da balança!
Tu és o meu Ka que está no meu corpo, o Knum que torna prósperos os meus membros. Dirige-te para o bem, que nos está preparado no além! (...) Não inventes mentiras contra mim perante o grande Deus, senhor do ocidente! Vê: da tua nobreza depende seres proclamado justo.
(...) ...Sete dias e eu sem a ver. A minha doença cresce: tenho pesados todos os membros! Já nem me reconheço.
O alto sacerdote não é medicina, o exorcismo é inútil: esta é uma doença sem explicação. Eu disse: Ela fará com que eu viva, o seu nome fará com que eu me erga... As suas mensagens são a vida do meu coração chegando e partindo.
Mas a minha amada é a melhor medicina, mais do que qualquer mezinha ou remédio. A minha saúde está em vê-la aparecer... Ficarei curado mal a veja. Abra ela os meus olhos e os meus membros retomarão a vida;
Basta que me fale e a minha força voltará. Abraçá-la fará desaparecer todos os vestígios da minha doença... Há sete dias que ela me abandonou...
"Enquanto que existimos no nosso corpo terreno, estamos sujeitos à lei da Natureza que é dualidade; e esta dualidade cria a afinidade entre os complementos separados. Esta dualidade, que é a base e o mal inicial da Natureza, é também a base da nossa experiência terrestre cuja finalidade é ultrapassar esta mesma Natureza na procura do retorno à Unidade. Ela é a base da nossa cultura de consciência, uma vez que lhe damos a possibilidade da escolha entre as qualidades opostas, entre o que é real ou relativo, bom ou máu para a nossa consciência actual.
A dualidade sendo a causa da sexualidade -- portanto, a afinidade entre os complementos -- é a causa do desejo que o ser humano chama amor. O erro está em confundir amor, desejo e necessidade (...)
"TOUTE CONNAISSANCE CONÇUE PAR LE COUER MONTE EN SURFACE D'ELLE-MÊME COMME LA CRÈME SUR LE LAIT, SANS AUCUN EFFORT DE PENSÉE: CECI EST LA VRAI CONNAISSANCE INTUITIVE".
"L'OUVERTURE DU CHEMIN"DE ISHA SCHWALLER DE LUBICZ
(...) O “eu” é o portador do nome que assiste, impotente, ao julgamento do seu coração. O Nome é o verbo aparente da personalidade humana terrestre; ele devia ser a expressão do seu Ka e da sua natureza, se ele estivesse correctamente atribuído. Ele é sempre a fórmula mágica que conserva a sua imagem na memória dos seres. Ele é a veste do eu egoísta; é por isso, que quando este eu egoísta se apaga diante do homem consciente do seu fim altruísta, nós modificamos o seu nome para o pôr em harmonia com o seu Ser e a sua função verdadeira.
- Porquê que é que a alma - pássaro (BA) fica à parte na cena do julgamento? - A alma divina é neutra, impassível e indiferente a esta história pessoal.
Se o homem não cultivou a afinidade do seu KA por esta alma, se ele não estabeleceu, por um apelo constante ao seu ser espiritual, a relação que é a sua consciência recíproca, a alma volta para a sua pátria, e o seu ser unificado não se poderá realizar."
In HER-BAK “Disciple”, de Schwaller de Lubicz. - A alma tem de se ligar ao Espírito, não só através da oração (o Nome verdadeiro), como dessa consciência recíproca.
"A atividade crucial de Maat ocorria no Palácio das Duas Verdades (Maati), onde os mortos iam para o julgamento final. Primeiro, o falecido deveria proferir uma “confissão negativa” declarando que não cometera pecados ou más ações. Verificava-se então se estava sendo honesto a cada um dos 42 itens confessados. Depois seu coração era colocado em um prato de balança, enquanto no outro estava uma pena de avestruz simbolizando Maat (a verdade). Por vezes era, ela mesma, a balança. Não se sabe com clareza de que forma o coração era pesado para que a alma do morto fosse considerada justa. Sabe-se somente, que se o coração tivesse o peso certo em contraste com o peso de Maat, a pessoa estava justificada.
O coração, portanto, é considerado a "voz" e somente ele dirá para onde deverá ser destinado. Caso não o tenha, a pessoa é lançada a um monstro híbrido temível composto de partes de crocodilo, leão e hipopótamo chamado Ammut, comedor de mortos.
Para os egípcios, o coração não era tão somente um órgão vital do corpo, mas era também a consciência, ou o centro do pensamento. Ele representava a voz de Maat no ser humano, a voz oracular da Ordem Cósmica que rasga o véu e penetra no mundo humano. Entretanto, por essa razão, as palavras do coração tornaram-se um problema para os egípcios, pois ele testemunhava no Palácio das Duas Verdades contra a pessoa. Essa crença era tão forte, que existia até uma prece especial, dirigida ao coração, que era inscrita em um amuleto em forma de escaravelho e depositada no local do coração durante o ritual de embalsamento. Tal prece suplicava que o coração não se levantasse "como testemunha contra mim".
Vi o teu rosto na lua... aparecia e sorria entre as nuvens e desaparecia. Ias e vinhas como uma fada e com as mãos brincavas com as estrelas dançando entre os raios de luz. Inebriavas-me com promessas que eu decifrava nas esferas, rodopiavas no céu e os teus raios estilhaçavam todo o meu ser.
Eu caia em abismos, memórias e perfumes e quando me erguia já não te via... A minha alma escurecia e pedia que aparecesses outra vez; e mais uma vez tu vinhas e dançavas para mim, e o meu sangue liquefazia-se e não sei porque magia eu voava e dançava contigo no espaço: era estrela e cometa e a própria lua... e já não sabia se o que via era o meu rosto ou o teu por cima de mim.
IN MULHER INCESTO- sonata e prelúdio de rosa leonor pedro
“E esta existência paralela, na Terra Última, é tão única genuína e exclusiva quanto as existências que levamos na terceira dimensão.E é sólida. A experiência da Terra Última é inteiramente física.”
In Terra Última de André Louro de Almeida «««« Por Maat
Ah, meu amor alado…tu vieste quando eu já não esperava nada…
Há muita coisa que disseste e eu não quis entender. Coisas que ressoaram estranhamente no meu ser, tão implacáveis umas e outras certeiras, outras que talvez ainda me venham a acordar lembranças que eu não quero. Coisas novas e velhas deste e doutros tempos que ecoam sub-repticiamente na minha memória…Eu sei que há coisas alojadas na nossa carne desconhecidas de nós…coisas que não sabemos ainda…e tantas vezes fazemos tudo por ignorar…fugimos de da dor encoberta por tantas mentiras e desculpas que nos demos ao longo da vida ou de muitas vidas…Eu sei que essa mentira está alojada nas nossas células, como dizia a Mère, e poucos são aqueles que se dão ao trabalho de as arrancar de lá. As nossas defesas são crostas que escondem feridas abertas. Às vezes é preciso tirá-las e elas voltam a sagrar…sim, nós temos couraças tremendas, medos que não ousamos enfrentar.
Coisas que só a Magia do Amor pode curar.
Ah! Como as palavras podem ser poderosas!Sim, as palavras são poderosas e mágicas…elas tanto têm o poder de evocar o Nome como de trair a Verdade quando te enleiam em teias e mentiras, criando um mundo falso de artifício que tu tomas e defendes como verdade... Elas tanto podem ajudar a construir um ser como a desferir um golpe de misericórdia…elas podem destruir completamente alguém quando as dizes cheia raiva… As palavras, meu amor, podem elevar o teu coração ao céu ou enviá-lo num ápice para o inferno. Elas podem ser salvíficas se forem justas… mas também podem ser terríficas quando as usas intrepidamente como espadas… elas ferem ou matam…
Elas podem ser música para o teu coração, se doces e ternas, acariciar-te a alma e redimensioná-la… mas as palavras também nos comprometem ou aprisionam ao pensamento dual…e podem por convicção ser bombas na tua boca como eu posso ser a suicida que se mata na alma amarrada a elas…por um ideal ou uma causa cega. As palavras podem ser néctar na tua língua se eivadas de amor e também podem ser viscosas, veneno puro, letal para quem as ouve, se de ódio…
Ah, mas as palavras, como eu as adoro ouvir de ti…e as que mais gosto…é as que proferes entre o silêncio de dentro e a música das esferas, quando exalas um suspiro íntimo e profundo e as calas e eu sinto debaixo da tua pele o teu coração que bate ao ritmo do universo… Tu vieste e transformaste a poesia em realidade, e cada palavra mágica que dizes viaja nas minhas células à velocidade da luz…É então que eu voo nas tuas asas Maat, e sinto o teu amor real e eterno. rosaleonorpedro
Quando Osíris é assassinado por seu irmão Seth seu corpo é desmembrado em 14 partes, segundo a versão mais aceita do mito. Ísis, esposa de Osíris, sai em busca das partes do esposo na intenção mágica de fazer com que Osíris ressuscite, só que apenas 13 partes são recuperadas, menos o falo, que fica perdido.
O falo de Osíris não recuperado por Ísis é um símbolo do que estava por vir: uma profecia.
O falo de Osíris é o símbolo do princípio masculino perdido. Assim não é só o resgate do feminino que precisa ser feito hoje em dia, o masculino, o homem verdadeiro precisa ser recuperado, pois está castrado, destituído de poder em si.
No mito egípcio, Ísis é capaz de conceber mesmo sem o falo de Osíris mostrando que o princípio feminino é capaz de gerar por si mesmo. A partenogênese prova isso.
Osíris foi desmembrado (Olha o duplo sentido! Que Freud me desculpe, mas não parece que a inveja do pênis é uma coisa entre homens?) por Seth e reconstituído por Ísis e Néftis. O mito indica que o princípio feminino não só gera a vida, mas também é capaz de restabelecê-la e reorganizá-la.
Assim o mito revela seu caráter profético ao indicar a queda do masculino e ao mostrar como restabelecer o poder do masculino em nossa época: através do feminino.
No mito Ísis pede ajuda de sua irmã, Néftis. E Néftis é a esposa de Seth, portanto a sua contraparte feminina. Se foi Seth que matou e fragmentou Osíris, é Néftis que auxilia Ísis a recuperar o poder do marido morto.
Assim não podemos ver Seth como o mal, porque a sua contra-parte não o é.
Tenho visto análises do mito como se os deuses fossem expressões da mente humana e não forças impessoais da Natureza, assim nessas análises os deuses são cumulados com qualidades típicas de humanos (inveja, ira, luxúria, violência, etc) que incapazes de verem algo além de si mesmos tomam as forças impessoais da Natureza como se extensões suas fossem. Humanos...
Cada Deus ou Néter, como uma força impessoal da Natureza, cumpre uma função no mito. Seth cumpre a função do destruidor, da morte. Ísis cumpre a função da vida, da restauradora.
E Néftis media entre um e outro ficando no limite entre a vida e a morte, pois ela é esposa de Seth e irmã de Ísis.
Ver Seth como o mal é separar e fragmentar o entendimento do mito, pois não há o mal absoluto, se assim fosse Seth não teria nascido da mesma fonte dos outros Néteres.
Ver Seth como o mal é alijar a força da morte do processo da vida. E tal não pode ser feito porque a vida é o caminho onde a morte nos desafia, permitindo-nos a renovação.
O processo de demonização de diferentes mitos tem como objetivo o controle mágico, ideológico e religioso, pois o mal torna-se sempre o outro, o outro culto, o outro deus, o adversário.
Isso ocorre com Seth, com Exu e com Pã ao serem identificados com o diabo cristão. Não é deus uma invenção do homem dito civilizado e sim o diabo, pois expressão de seu próprio ego auto-importante e fragmentado. Não há conceito de diabo ou mal personificado nas tradições em harmonia com a Terra. O diabo nasce da desarmonia do homem com a própria Terra da qual é fonte.
Seth, Pã e Exu personificam forças que lidam diretamente com esse mundo, com essa realidade. Uma elite mística, religiosa e mágica identificou esses mitos com o mal apenas para que as massas ficassem alijadas do uso de tal poder enquanto eles mesmos executavam e executam ritos de magia com tais poderes. Um ponto cantado tradicional de Umbanda diz que "na batina do padre tem dendê", indicando como os antigos xamãs afro-brasileiros percebiam as manobras ocultas dos curas católicos. Vemos os padres vestidos de preto e vermelho, em especial os cardeais. Dizem que a própria Igreja Universal que persegue os cultos afro-brasileiros celebra em segredo os mesmos, basta para isso ver que adotam formas e práticas algo disfarçadas muito semelhantes em várias ocasiões. Eles usam essa vibração e conquistam posições no mundo material e alijam a massa de tal força.
Osíris e Seth são dois aspectos da mesma força. “Osíris é um deus negro”.
Há um ponto na Umbanda que revela a seu modo, sob a linguagem sincrética e misturada, o fato de Osíris ser um deus negro.
Exu que tem duas cabeças
Mas ele olha a sua banda com fé
Se uma é Satanás no inferno
A outra é de Jesus Nazaré.
É claro que tal ponto arrepia até a alma aqueles que não têm a compreensão da Unidade.
Alguns ouvirão no fundo da mente o coro inquisidor gritar: - Blasfémia, heresia!
Mas a maior blasfémia é a heresia da separatividade. Quando separamos essas forças uma fragmentação ocorre e perdemos a conexão com o princípio masculino que fica em desequilíbrio.
Esse desequilíbrio tem dois pólos:
Osíris morto representa a espiritualidade morta e Seth assassino é a sexualidade exacerbada e descontrolada porque destituída de espírito. Sim, podemos ver Osíris como o espírito em nós e Seth como a sexualidade em nós, dois aspectos de uma mesma força. O mito mostra isso pois o falo é a única parte não recuperada do corpo de Osíris, pois ele pertence na verdade a Seth, que como Exu, é uma entidade fálica.
Assim recuperar a sexualidade sagrada é reconciliar Osíris e Seth, permitindo a ressurreição de um homem verdadeiro, capaz de honrar o feminino, a Deusa e a mulher porque integra em si o desejo sexual e espiritual. A sexualidade sagrada é uma relação entre o masculino e o feminino, que não pode ocorrer se o homem mantém-se fragmentado. Um homem fragmentado torna-se um padre ou um monge que odeia o feminino porque vê na mulher a imagem do pecado e da tentação ou um machista que tenta se impor pela agressividade, pela violência, pelo dinheiro, pelo poder que ostenta de diferentes formas, que vão de um carrão até a construção de monumentos como obeliscos gigantescos imitando um poder que não possui em si e que vê na mulher um objeto de consumo.
Há no machista e no monge que nega a si mesmo uma espécie de raiva da mulher, porque há uma inveja de seu enorme poder sexual e capacidade multi-orgástica. Essa inveja fez com que nossa cultura limitasse o poder do feminino em dois estereótipos: a virgem mãe e a prostituta arrependida. São tentativas desesperadas do macho fragmentado de tentar controlar a fêmea porque incapaz de fazer frente, pelo auto-domínio, ao poder sexual da mulher, ainda mais da mulher plena.
As 13 partes de Osíris recuperadas nos indicam o arcano 13, a morte do Tarot. A 14ª parte indica, se recuperada, a possibilidade de uma transição para uma era de regeneração, 14 é o número do Tarot para a Temperança, que tem óbvias semelhanças com Aquário, signo da nova era, regido por Urano, regente no corpo humano das glândulas sexuais, onde está a força do espírito, a força feminina e regeneradora, a Energia Criadora, Shakti, Kundalini, Néftis, a Ísis velada e oculta em nosso corpo. No arcano 14 do Tarot vemos um anjo hermafrodita, símbolo da harmonia e da reconciliação do feminino e do masculino.
Assim cada homem é um Osíris assassinado que pode recuperar-se ao juntar em si o poder de Seth, sexualidade e o poder de Osíris, o espírito, por intermédio do feminino: Néftis como o poder oculto de Kundalini e Ísis como esse mesmo poder revelado e restaurado em nosso corpo, a serpente expressa pelo terceiro-olho dos iniciados egípicios.
Para tal Osíris – o homem - e Ísis – a mulher - devem celebrar o casamento mágico e alquímico.
obs: texto em construção - F.A. in pistas do caminho
http://pistasdocaminho.blogspot.com/ * Agradeço a F.A. a sua lucidez e consciência e espero que ele não se importe que publique o seu texto em construção na íntegra. Mulheres E Deusas abençoa os homens lúcidos e que percorrem o Caminho de retorno à origem sagrada!
rlp
“Este grande país inventou tudo, desde o nome dos deuses deuses imortais, à escultura, à arte de governar, e agora chafurda na lama das margens do rio que lhe dá vida. Outrora a maior nação da Terra, é agora uma apenas entre muitas. (…)
Desde que os Egípcios destronaram a grande Mãe Ísis, a Mãe Suprema, a Deusa de que todos os seres surgiram, perderam o poder e desceram até ao nível das outras nações. Todos os países entram em decadência, quando destronam as suas deusas – este é um segredo que vós, Safo, deveis compreender.”
Todas as religiões têm um conteúdo moral ao lado dos objetos de culto e a moral básica dos egípcios tinha o nome de MAAT. Ela foi criada antes do mundo e através dela o mundo foi criado. É quase impossível traduzir a palavra com exactidão, mas ela envolvia uma combinação de idéias como "ordem", "verdade", "justiça" e "rectidão". Considerava-se Maat uma qualidade não dos homens, mas do mundo, infundida neste pelos deuses no momento da Criação. Assim sendo, representava a vontade dos deuses. A pessoa se esforçava para agir de acordo com a vontade divina porque essa era a única maneira de ficar em harmonia com os deuses.Para o camponês egípcio, Maat significava trabalho árduo e honesto, já para o funcionário, significava agir com justiça.
Durante as amargas dificuldades e a desilusão que flagelaram o Primeiro Período Intermediário, surgiu por instante a idéia que Maat não era apenas uma qualidade passiva inerente ao mundo, mas que os súditos do rei-deus tinham o direito de esperar que fosse praticada. Isso representava um passo para o desenvolvimento de um conceito de justiça social.Portanto, é mais importante "conservar Maat" (isto é, obedecer a lei) do que adorá-la. A própria Maat dá assistência nessa tarefa guiando, instruindo e inspirando os egípcios e após a morte ela é o princípio pela qual eles são julgados. Ela é a personificação da sabedoria!No período helênico, os atributos de Maat foram absorvidos por Ísis.Maat era portanto, a Deusa da Justiça e da Verdade, ligada ao equilíbrio (Libra) necessário para a convivência pacífica entre todos os seres."
N.C. Na Deusa Selvagem 2 você conta uma experiência que teve num templo no Egipto, onde sentiu as contracções de um parto. Experiências dessa natureza são igualmente de júbilo?
- Completamente. Eu estava em viagem no Nilo. Estava a visitar o templo de Denderah, mais precisamente na cripta do templo de Ísis-Hathor. Em frente a um muro, mergulhada na obscuridade eu senti, é verdade, violentas contracções de parto. Eu voltei-me para a parede, com os olhos fechados e vi interiormente os cornos de Hathor, o seu disco vermelho, com o sentimento de estar a ser arrastada numa dança de electrões. Depois destas duas experiências, tomei conhecimento que os hieróglifos de um lado da parede figuravam um texto sobre o nascimento físico, e do outro lado um texto sobre o nascimento espiritual. Só as mulheres podem viver estas sensações. Talvez porque elas por definição são mais abertas e prontas a aceitar deixarem-se tomar por forças, energias que as ultrapassam.
A Ideia deste Blogue e a sua manutenção passa exclusivamente pela recolha de textos relacionados com o Egipto e as suas Deusas. Inicialmente pensei que seria mais fácil para mim evocar memórias e trazer aqui poemas e excertos que evocassem o espírito vivo e a beleza que eu sinto e sei que era apanágio dessas vivências que guardo no mais fundo de mim mesma. Elas são de tal forma sagradas que tenho dificuldade em trazê-las à superfície.
Ontem falando com uma amiga a propósito da minha viagem ao Egipto disse-lhe e constatei que a experiência mais significativa de acesso a outros planos e elevação do meu ser se passou diante da Grande Pirâmide no momento em que comecei a caminhar na sua direcção. Caminhei para lá do tempo e do espaço muito acima deste plano...
Tenho a certeza absoluta que fui elevada a um estado de consciência raro e que todo o meu ser se elevou muito acima do tempo e do espaço e a minha alma saiu desta dimensão para um nível que eu presumo seja a eternidade...
Gostaria de um dia voltar lá...porque o ar que aí respirava era outro e a sensação de infinito à minha volta era indescritível... Como se eu tivesse de ter uma Pátria, digo uma Matria eleita sem dúvida que seria o Egipto Sagrado, o mais certo no Templo de Ísis...onde fui sacerdotisa...
Portanto, manter este nível de consciência e exigência de experiência e qualidade é muito difícil e é por essa razão que venho aqui tão pouco...mas agradeço as amigas e amigos que por acaso aqui passem...e se mantém fiéis a este espaço. R.LEONOR PEDRO
"Ó vós que estais nas margens do céu ocidental,
que vos alegrais em ir ao encontro de Hathor
e desejais ver a epifania da sua beleza!
Eu dou a conhecer a sua essência,
e digo diante dela o quanto me alegro com a sua visão.
Meus braços fazem o gesto certo:
Vem a mim, vem a mim!
Meu corpo fala e meus lábios repercutem a música das sacerdotisas de Hathor,
a música de centenas de milhar e milhões de sons.
Eu sou quem faz com que o cantor da manhã inspire música diariamente
para Hathor, a todas as horas em que deseje
para que o teu coração se alegre com a sua música".
Quem sou? Para onde eu vou? O que há depois? ...e uma infinidade de perguntas semelhantes a estas povoam a mente do ser humano. Entretanto, somente poucos se dedicam em encontrar alguma resposta.
Você não precisa ser um "exper" cabalista, um consumado astrólogo ou um intrépido alquimista para conhecer as verdades que residem em seu interior. Temos sim, é que aproveitar o esforço e o conhecimento que nossos ancestrais nos deixaram como herança. Estamos imersos em Maat, a Corrente da Verdade e do Equilíbrio, onde todos os seres da Criação devem sentar em seu trono. De onde o homem e a mulher, a natureza e a humanidade, podem conviver com respeito mútuo.
MAS QUEM É MAAT?
Maat é a personificação da Verdade, da Justiça e da Harmonia Universal. Ela é a potência, o princípio metafísico, que mantém o mundo na sua regrada continuidade. O Cosmos, a Natureza, e a Sociedade, no fundo, a Ordem Universal, só se mantêm de forma duradoura exatamente pelo seu atento zelo.Representada como uma mulher, de pé, sentada ou com um dos joelhos em terra, apresenta, fixada em uma fita da sua cabeleira, uma pluma de avestruz, que é o seu principal signo identificador. Em muitas representações, a simples figuração da pluma simboliza a sua presença e atuação.É irmã de Rá, o Deus-Sol e esposa de Thoth, o escriba dos deuses com cabeça de ibis.Maat é equivalente à Têmis grega e, como esta, é explicitamente a representação divina da lei e da ordem cósmicas naturais. Como ordem cósmica, Maat é o alimento do Deus-Sol Rá; é também "o olho de Rá" e o Ka de Rá. Segundo as crenças egípcias, o corpo do homem se compunha de dois elementos espirituais, o Ba, similar a alam e o Ka, uma espécie de réplica do corpo. A morte representava a separação do elemento corporal dos espirituais. Entretanto, Ka não poderia sobreviver sem a presença do corpo, foi daí que se desenvolveram técnicas precisas de conservação, conhecidas com embalsamento. O processo de mumificação tinha como objetivo a manutenção do corpo para própria existência de Ka.
Maat é a Senhora do Céu, Rainha da Terra e amante do Mundo Inferior. O grande inimigo de Maat era Seth, a versão egípcia do Ares grego, Deus da desordem crassa, da injustiça e da ambição.
O PALÁCIO DAS DUAS VERDADES
A atividade crucial de Maat ocorria no Palácio das Duas Verdades (Maati), onde os mortos iam para o julgamento final. Primeiro, o falecido deveria proferir uma “confissão negativa” declarando que não cometera pecados ou más ações. Verificava-se então se estava sendo honesto a cada um dos 42 itens confessados. Depois seu coração era colocado em um prato de balança, enquanto no outro estava uma pena de avestruz simbolizando Maat (a verdade). Por vezes era, ela mesma, a balança. Não se sabe com clareza de que forma o coração era pesado para que a alma do morto fosse considerada justa. Sabe-se somente, que se o coração tivesse o peso certo em contraste com o peso de Maat, a pessoa estava justificada.
O coração, portanto, é considerado a "voz" e somente ele dirá para onde deverá ser destinado. Caso não o tenha, a pessoa é lançada a um monstro híbrido temível composto de partes de crocodilo, leão e hipopótamo chamado Ammut, comedor de mortos.
Para os egípcios, o coração não era tão somente um órgão vital do corpo, mas era também a consciência, ou o centro do pensamento. Ele representava a voz de Maat no ser humano, a voz oracular da Ordem Cósmica que rasga o véu e penetra no mundo humano. Entretanto, por essa razão, as palavras do coração tornaram-se um problema para os egípcios, pois ele testemunhava no Palácio das Duas Verdades contra a pessoa. Essa crença era tão forte, que existia até uma prece especial, dirigida ao coração, que era inscrita em um amuleto em forma de escaravelho e depositada no local do coração durante o ritual de embalsamento. Tal prece suplicava que o coração não se levantasse "como testemunha contra mim".
Para os antigos egípcios, o porta-voz oracular da lei da natureza, localizado no próprio corpo do indivíduo, estava muito mais próximo da consciência ordinária do que consideravam os gregos, para quem Gaia e Têmis haviam sido forçadas a retira-se do Delfos e a permanecer nos mundos inferiores, enviando de lá mensagens através dos sonhos. Muito embora Maat falava em nome da ordem cósmica, ela também é "o olho de Rá" e os filhos de Rá sentavam-se nos tronos dos faraós. Deste modo, a lei e a justiça estavam unidas, e os árbitros da ordem natural e da ordem social eram um só, unidos em Maat e no faraó. Por intermédio do oráculo da Deusa, o coração, as leis e os costumes da vida social eram confirmados por uma intuição mais profunda de justiça e integrados nesse nível.
MAAT E O FARAÓ
Algumas vezes, Maat era representada infundindo o hálito da vida nos faraós. Para tanto, suspendia um ankh contra o seu nariz. Hator e outros deuses e deusas também se representavam da mesma maneira, porém só Maat infundia o alento da vida sobre o começo de todas as coisas.Como princípio divino e como divindade do Equilíbrio Cósmico, Maat era uma força permanente ao lado do faraó aprovado e escolhido pelos deuses. Em última instância, o funcionamento regular e a própria existência e continuidade do faraonato como instituição fulcral da vida egípcia dependiam da atuação de Maat.Em complemento, a função real devia estar conforme aos desígnios universais que a própria Deusa perseguia, ou seja, a promoção e a manutenção da fecundidade, da prosperidade, da solidariedade e da abastança das Duas Terras, sob todos os aspectos.
O faraó devia honrar a Justiça, a Eqüidade, a Verdade, a Retidão, isto é, a Deusa Maat.Sentado em seu trono, o faraó trazia em sua mão uma figura da Deusa, diminuta como uma boneca, também sentada, que se oferecia aos deuses como sinal de que o rei representava a ordem divina que não havia sido perturbada desde o dia de sua criação. De forma similar, os juízes levavam sobre o peito um emblema lapis-lázuli que representava Maat. Assim, a ordem social era um reflexo da ordem divina e o governo de cada dia representava o tempo primordial em que Rá, o Sol, pôs a ordem (Maat) em lugar do caos.Nessa linha de idéias, é compreensível que uma representação recorrente no âmbito da ideologia e da iconografia real seja a oferta de uma estatueta da Deusa Maat feita pelo faraó aos deuses. O rei assume e compromete-se perante as divindades mais elevadas do panteão a zelar maaticamente pela marcha harmoniosa do país, pelo estabelecimento e funcionamento da Justiça, da Paz, do Equilíbrio e da Solidariedade, nas suas vertentes social, ética e cósmica."A oferenda de Maat" resume-se, portanto, numa imagem carregada de significado: é o símbolo máximo da atividade litúrgica, que consiste, no fundo, numa sólida relação interativa entre o oficiante e o oficiado. A esfera humana, terrestre, reconhecendo a fragilidade da sua posição no Cosmos, louva e honra os deuses, a esfera divina, deles guardando, em resposta, a proteção, o auxílio, a benção.
A Deusa Maat é, assim, a medida de toda a conduta humana. Sem ter culto local específico, ocupava um papel fundamental na vida dos egípcios.Além da oferenda da efígie da Deusa perante divindades maiores, conscientes da importância significativa da relação com a Deusa Maat, muitos faraós, de vários períodos históricos, incorporaram nos seus nomes a nomenclatura da Deusa. A este propósito são de citar os casos de Amenemhat III, da Xii dinastia, cujo nome de coroação era Nimaetré, ou seja, "Aquele que pertence à Maat/Justiça de Rá" Na XVIII dinastia, faraós como Hatchepsut (nome de coroação: Maetkaré, "A Maat/Justiça é o ka de Rá) e Amenhotep III (nome de coroação: Nebmaetré, "Rá é o senhor de Maat/Justiça") levaram também em consideração este importante vetor na proclamação das suas titulaturas.Entretanto, muitos outros faraós seguintes denotam este reconhecimento pela ação conjugada que deviam assegurar com a Deusa Maat: Seti I e Ramsés XI (nomes de coroação: Menmaetré, "Estável é a Maat/Justiça de Rá); os Ramsés II, III, V, VII e VIII, que escolheram todos como uma das designações dos seus nomes de coroação Usermaetré, ou seja, "Poderosa é a Maat/Justiça de Rá); Merenptah usava um pujante Hotephermaet, "Aquele que está repleto de Maat/ Justiça" como epíteto associado ao seu nome de nascimento; Ramsés IV preferiu para nome de coroação Hekamaetré, "Soberano de Maat/Justiça como Rá", enquanto que Ramsés VI (como Amenemhat III) optou por Nebmaetré "Rá é o senhor de Maat/Justiça".Também no Terceiro Período Intermediário, faraós das XXII e XXIII dinastias continuaram a utilizar o mesmo processo (Takelot I, Osorkon II, Chechonk II, Petubastis I, Chechonk III). Até no Período Ptolomaico a tendência se verifica: Ptolomeu VI tinha como nome de coroação Irmaetenimenré, "Aquele que faz reinar a Maat/ Justiça de Amon-Rá); os Ptolomeus VII e XII usavam como nome de coroação Irmaet "Aquele que faz reinar a Maat/Justiça"; Ptolomeu XV (o filho de Cleópatra VII e de Júlio Cesar) não se fez de rogado e adotou como nome de coroação Irmaetenré, proclamando-se assim como "Aquele que faz reinar a Maat/ Justiça de Rá).Todos esses faraós "amados e amantes de Maat" a viam como uma autoridade suprema, cujo comportamento modelo tentavam, pelo menos ideológica e propagandisticamente, capitalizar na sua onomástica. O próprio faraó "herético" Akhenaton foi descrito como vivendo "de acordo com Maat". Além disso, a maioria dos faraós que usaram o nome da Deusa (designadamente a partir de Ramsés VI) reinavam em períodos de esfacelamento e de decadência da própria civilização faraônica, até da própria instituição real, o que reforça ainda mais a importância e o significado político-mental que efetivamente a Deusa Maat detinha no seio da sociedade e da cultura egípcia.
A DEUSA COMO UM IDEAL A SER ALCANÇADO
Atum (deus supremo) disse: "Quando os céus dormiam eu vivia com minha filha Maat, uma em mim, a outra ao meu redor", revelando o significado da "Dupla Maat": em um nível, a união do sul com o norte (alto e baixo Egito) e, em outro, a união da consciência individual e a consciência cósmica ou universal, para que se crie a harmonia.Schwaller de Lubicz escreve a respeito:
"O princípio da harmonia é uma lei cósmica, a voz de Deus. Seja qual seja a desordem que o homem ou os acidentes naturais fortuitos possam provocar, a natureza, por si só, voltará à colocá-la em ordem através das afinidades (a consciência que habita em todas as coisas). A harmonia é a lei a priori escrita em toda a natureza: se impõe a nossa inteligência, porém em si mesma resulta incompreensível."
Portanto, Maat era a Deusa através da qual se faziam visíveis as leis fundamentais do universo. Encarna a verdade, a ordem justa, a legalidade e a justiça. Em certo sentido não está separada dos outros deuses e deusas, senão que, como divindade, é o princípio que nos leva à chegar em todos eles.A Deusa como estado de existência parece abstrair-se da figura da própria Deusa; o que ocorre realmente é que esta distinção (entre Deusa e a idéia) não existem para os egípcios, como tampouco a distinção entre ética e metafísica, nem na vida, nem na morte.Como se vê, os deuses egípcios não eram pessoas imortais para serem adoradas, mas sim ideais e qualidades para serem honradas e praticadas.
MAAT, UM CONCEITO ÉTICO DE VIDA
"Faze justiça enquanto durares sobre a Terra"Todas as religiões têm um conteúdo moral ao lado dos objetos de culto e a moral básica dos egípcios tinha o nome de MAAT. Ela foi criada antes do mundo e através dela o mundo foi criado. É quase impossível traduzir a palavra com exatidão, mas ela envolvia uma combinação de idéias como "ordem", "verdade", "justiça" e "retidão". Considerava-se Maat uma qualidade não dos homens, mas do mundo, infundida neste pelos deuses no momento da Criação. Assim sendo, representava a vontade dos deuses. A pessoa se esforçava para agir de acordo com a vontade divina porque essa era a única maneira de ficar em harmonia com os deuses.Para o camponês egípcio, Maat significava trabalho árduo e honesto, já para o funcionário, significava agir com justiça.
Durante as amargas dificuldades e a desilusão que flagelaram o Primeiro Período Intermediário, surgiu por instante a idéia que Maat não era apenas uma qualidade passiva inerente ao mundo, mas que os súditos do rei-deus tinham o direito de esperar que fosse praticada. Isso representava um passo para o desenvolvimento de um conceito de justiça social.Portanto, é mais importante "conservar Maat" (isto é, obedecer a lei) do que adorá-la. A própria Maat dá assistência nessa tarefa guiando, instruindo e inspirando os egípcios e após a morte ela é o princípio pela qual eles são julgados. Ela é a personificação da sabedoria!No período helênico, os atributos de Maat foram absorvidos por Ísis.Maat era portanto, a Deusa da Justiça e da Verdade, ligada ao equilíbrio (Libra) necessário para a convivência pacífica entre todos os seres.
Maat rege o primeiro signo social do zodíaco egípcio. . Era filha de Rá, o Sol, e de um passarinho que, apaixonando-se pelo calor e pela luminosidade dos raios solares, subiu por eles até morrer queimado. No momento em que foi incinerado, uma pena voou pelos ares. Essa era a nossa Deusa Maat. Ela também foi a responsável pela união do Alto e do Baixo Egito, simbolizando com isso a força da união e os benefícios da justiça. Sem Maat, a criação divina, que é a Terra e seus habitantes, não poderia existir, pois tudo se afundaria no caos inicial.Maat toca todos os aspectos da vida: independência, situações familiares, amor, ódio, temor, enfermidade, morte, eternidade, solidão, propósito e eleições. Não há situação que não possa ser enquadrada no esquema da verdade.
A JUSTIÇA
Não se trata aqui da justiça dos homens, até porque esta justiça não está com seus olhos vendados, mas atenta para preservar a ordem social. A vida é sempre justa em relação a ela mesma. Não vacila. Atua de tal modo que tudo que provém dela a ela retorna. Nada se perde, tudo se regenera, se renova e se transforma. É este o sentido do número 8 deste arcano, o do equilíbrio cósmico, da ressurreição e da transfiguração. A Justiça nos permite tomar consciência de que, sem limites definidos, nada pode sobreviver ou subsistir no mundo. E a balança de Maat o que aqui significa? Ela pesa o bem e o mal, os prós e os contras, as vantagens e desvantagens, mede, calibra e julga.
Maat representa além do equilíbrio, a harmonia do Universo primordial. Tal equilíbrio necessita dessa Deusa que personifica a justiça. Maat nos lembra que "o que fizermos aos outros, a nós será feito". É Maat, que protege os advogados e os tribunais.
Maat chega com sua pena da verdade para trazer justiça à sua vida.Você já foi injustiçada(o)? Tem usado sua integridade para com os outros? Tem sido honesta(o), ou faz justiça com as próprias mãos? Tem mania de ficar julgar todo mundo? Pois saiba que o julgamento é o fracasso da compreensão, não somos deuses para julgar ninguém. Talvez seus padrões sejam tão rígidos que você ache impossível atendê-los e se sente continuamente obrigada(o) a rebelar-se? Pois está na hora de você promover seu equilíbrio interior e interagir harmoniosamente com o universo. Maat vem lhe dizer que o caminho da totalidade só será conseguido se você aceitar a natureza amorosa da justiça que busca corrigir todos os erros ao dar as lições necessárias.
(...)
Enviado por Ninnan
NOTA - Este texto foi-me deixado nos comentários sem origem do artigo nem o nome do autor.O que lamento, pois trata-se de um texto muito importante bem escrito.Gostaria por isso de fazer justiça ao autor...
«A civilização faraónica conferiu à mulher do Antigo Egipto um estatuto excepcional, que as sociedades modernas nem sempre conseguiram igualar. Em todos os domínios, do espiritual ao material, a mulher era considerada igual ao homem. Tinha a liberdade de se casar com o homem que escolhesse, de se divorciar com direito a uma pensão, de legar e de herdar. Podia ser chefe de empresa, especialista em finanças, proprietária de terras, administradora de bens ou consagrar-se aos mistérios divinos nos templos e santuários. (...) As Egípcias são um retrato fascinante e surpreendente de uma das sociedades que mais apelam ao imaginário do nosso mundo moderno»
Christian Jacq
A Civilização faraónica não "conferiu" à mulher um estatuto excepcional que ela por condição não o tivesse já ou, como nós poderíamos achar hoje em dia, a título de favor, uma espécie de paridade política, mas respeitou apenas e correspondeu à necessidade de Equilíbrio dos dois princípios, o pólo feminino e o pólo masculino, que os egípcios sabiam ser a condição indispensável para o equilíbrio do ser humano e da manifestação do amor e da paz... até um dado momento histórico em que tudo se perverteu.
Mas enquanto a Mulher esteve no papel que lhe correspondia naturalmente e na própria representação das suas Deusas, e a energia viva de Hathor como Deusa suprema do amor, o Egipto foi uma civilização diferente e pacífica porque sábia. E sem dúvida que esse facto se devia à harmonia e integração das forças opostas e complementares do princípio feminino e masculino. Os egípcios alcançavam a maitrise do Ser através da Deusa Maat, a Deusa da Justiça e da Verdade que pesava o coração dos vivos e dos mortos...Se estes não fossem puros ou tão leves como uma pena, não viveriam na eternidade.
Quando da sua queda depois das sucessivas invasões bárbaras de domínio exclusivamente patriarcais, e as suas influências se afirmaram, começaram a minar até à destruição essa Estrutura Sagrada que eram os Templos e que fez do Egipto talvez a civilização mais evoluída do Planeta. A partir dessa altura, como em geral por toda a terra nessa época, esse estatuto e dignidade das mulheres foi-lhes confiscado e as mulheres começam a ser meros objectos de prazer, prostituídas, concubinas, meras procriadoras ou escravas . R.L.P.
Sonhos de unidade, visão transcendente de inteireza, potência e amor, outrora representados pela Grande Mãe. No Egipto, os Mistérios de Ísis, eram celebrados a partir de um ritual matutino e a cada hora uma celebração que só terminava na vigésima Quarta hora com a revelação dos mistérios quando as estrelas brilhavam no céu. A Grande Deusa era invocada e os segredos da vida revigorados, cultuados.. (...)
O conflito entre os deuses patriarcais e a deusa mãe foi se intensificando e os cultos à ela foram se dispersando ou sendo assimilados distorcidamente. Dionísio, deus do êxtase e do entusiasmo, do abandono aos poderes da natureza; Pã, expressão do espírito da natureza selvagem; Afrodite, deusa do amor, da união sexual, mãe de Eros; tornaram-se objectos da repressão cristã e reapareceram mesclados na imagem do diabo. Suas funções psicológicas submergiram nas profundezas do inconsciente. E a sensação intrínseca de confiança em pertencer à Grande Mãe Natureza deixou de existir reaparecendo séculos após nos sintomas das histéricas de Freud . Corpo, sexualidade e inconsciente/natureza emergem da escuridão para serem reintegrados. E neste fim de milénio as depressões que afligem a alma humana clamam pela busca de sentido, valor principal do arquétipo maior. Mergulhada na morte, a alma contesta os valores esquecidos, exige reflexão em redescobrir os mistérios femininos ligados ao ciclo vida – morte – vida e encaminha para a elaboração da morte simbólica. Faz repensar a questão espiritual, o ser criativo recriando-se, regenerando-se, curando-se dos excessos de violência e agressividade a que a humanidade se submeteu em prol do desenvolvimento da razão.
(...) Na medida em que o Pátrio Poder se desenvolve e a lei do mais forte se instala, o uso da agressão se impõe nas relações humanas gerando competitividade, poder, conquista, luta pela posse de um território, guerras. Surge a questão da herança, institui-se o casamento. E a posse sobre a mulher, sua sexualidade, prazer e direito à própria vida se concretiza. Ao dominar a função biológica reprodutora o homem passa a controlar a sexualidade feminina. O poder cultural passa a desenvolver-se em oposição ao poder biológico nato na mulher. A vulnerabilidade permeia a função de parir, a mulher se inferioriza, torna-se dependente e o homem trabalha e domina a natureza.(...)
Usado no culto à Grande Senhora da Lua, O Graal continha a água do poço sagrado e num coro ritualístico as sacerdotisas faziam reflectir a luz da lua na limpidez da água e celebravam a natureza, a vida e os ciclos eternos, o ir e o vir. (...)
O mal precisa ser elevado à consciência, pessoal e colectiva, para tornar-se fonte de criatividade. A feiticeira, que é a antítese da mulher idealizada, símbolo das energias criadoras instituais, não domesticadas e não disciplinadas precisa ser ouvida. A integração desta sombra traz de volta a mulher selvagem, que segue seu instinto de preservação, que possui sua energia vital, sexual, que fareja o perigo, que intui a cura e sabe o que a alma está pedindo, que sabe aplacar o sofrimento e pode transmitir o dom da vida.
Esta integridade faz a ponte para a transcendência. É a mulher novamente apresentando-se como agente de mudança para uma nova etapa no desenvolvimento da consciência humana."
Das Bruxas à Psicologia Clara Rossana Ferraro de Sá (Excertos de artigo)